Qual a tua concepção sobre as relações sociais de gênero na categoria?

Nossa concepção é baseada em conceitos e na visão
critica da contradição do capital X Trabalho. Falar em concepção é não deixar
de lado a divisão entre Homem e Mulher no trabalho que está na base social da
opressão e da desigualdade. Em primeiro lugar, é preciso destacar que ela é
histórica, ou seja, foi sendo constituída, não é imutável. Mas tem princípios
que permanecem; o que modificam são as modalidades. Isso nos ajuda a pensar
sobre a permanência dessa desigualdade. Consideramos que há dois princípios
organizadores das relações sociais de gênero da nossa categoria e divisão
sexual do trabalho. Um deles é a separação, essa ideia que separa o que é
trabalho de homens e de mulheres. Outro é a hierarquia, que considera que o
trabalho dos homens vale mais do que o das mulheres. Precisamos superar essa
hierarquia que nasce no seio do capital, que é opressão e desigualdade.
Uma das principais justificativas ideológicas para
a divisão sexual do trabalho é a naturalização da desigualdade, que empurra
para as relações sociais as práticas de homens e mulheres. Ou seja, atribui a
uma essência social como parte da natureza, a construção do masculino e do
feminino. Mas é preciso materializar nossa concepção de classe, e a ideologia,
a reprodução simbólica, com a existência de uma base material.
Neste sentido, é importante chamar atenção para o
fato de que, muitas vezes, o conceito de divisão de gênero do trabalho fica
reduzido às estatísticas sobre as diferenças de inserção no mercado de trabalho
de homens e mulheres.
Isso não dá conta da complexidade deste conceito,
que faz parte de um processo da luta e da organização feminista, e que busca
justamente entender como se transforma em desigualdade o trabalho entre homens
e mulheres.
A emergência do conceito da divisão sexual do
trabalho teve um papel muito importante para questionar o que era a definição
clássica de trabalho. As feministas que discutiram a divisão sexual do trabalho
estavam no campo do marxismo. Elas problematizaram que o debate de classe não
explicava e não dava conta do conjunto da realidade do trabalho. Num primeiro
momento, parecia haver uma destinação dos homens ao trabalho chamado produtivo
e uma destinação prioritária das mulheres ao trabalho reprodutivo. Mas o que se
viu foi muito mais do que isso. As, mulheres, estão simultaneamente nas duas
esferas: no trabalho produtivo e no trabalho reprodutivo.
No capitalismo, é considerado produtivo só aquilo
que gera troca no mercado, ou seja, aquilo que pode se “mercantilizar”. E aí o
trabalho reprodutivo deixa de ser trabalho porque não se troca no mercado.
Ao mesmo tempo, o trabalho mercantil depende do
trabalho doméstico e de cuidados, que é feito na casa, realizado pelas mulheres,
onde o machismo é predominante. A
abordagem da economia feminista consolidou um enfoque de economia mais amplo,
que considera o trabalho de reprodução e outras atividades não monetárias como
parte da economia.
Divisão internacional e sexual do trabalho
Um desafio colocado para as mulheres é pensar a
nova reconfiguração da divisão internacional e sexual do trabalho e em como uma
nova forma da divisão sexual do trabalho estrutura a divisão internacional do
trabalho. Por exemplo, em todos os setores “transnacionalizados” que precisam
de mão-de-obra intensiva, quem está ali são as mulheres.
O
capitalismo se utiliza da mesma forma do trabalho intensivo das mulheres, como
foi no final do século XIX, início do século XX, mas agora sobre outras
modalidades, como a migração. Em vários países, inclusive na América Latina, as
mulheres Paraguaias, Uruguaias, Equatorianas, mais ainda as Bolivianas veem ao
nosso país e são submetida ao trabalho degradante, análogo à escravidão nas
Indústrias do vestuário que está entre principais envolvidas nos casos de
trabalho análogo a escravidão. E, produzem as marcas de confecções vendidas
para as grandes redes multinacionais como a C&A, M.Officer e ZARA. E redes locais como a
As lojas Marisa, denunciadas em ações fiscais do MTE-Ministério do Trabalho
Emprego, MPT-Ministério Público do Trabalho e PF-Policia federal.
Um olhar sobre o conjunto
O conceito de equidade e igualdade. E, de fato, se
não pensamos na transformação global da sociedade, no conjunto das relações,
muitas vezes o que chamamos de igualdade fica no terreno da equidade ou da
equiparação. Por exemplo, em termos de renda, escolaridade, propriedade entre
homens e mulheres, quando falamos de igualdade estamos tratando de uma
transformação geral de como a sociedade se
organiza e de um questionamento a todas as formas de desigualdade e hierarquia.
Isso traz, por exemplo, um outro olhar para a relação reprodução, para o
conceito de trabalho, para a dimensão étnico-racial.
A lógica do mercado prevê que as pessoas devem
estar o tempo todo disponíveis para o seu trabalho mercantil, enquanto a lógica
do cuidado exige acompanhar os ciclos da vida.
Hoje essa sociedade do mercado, no mundo inteiro,
se sustenta na utilização do tempo e do trabalho como fontes inesgotáveis e
como variáveis de ajuste para manter este modelo funcionando. Em Fortaleza, uma
empregada doméstica sai de casa às 6h e volta pra casa às 20h. O que sempre
estica é o tempo e o trabalho das mulheres. É visível: em períodos de
desemprego na família, as mulheres trabalham mais, fazem um bico, produzem mais
bens e serviços dentro de casa, onde exercem a tripla jornada de Trabalho.
Todos esses elementos têm que vir para nossa
agenda, até pra gente olhar para uma campanha especifica. Na campanha Igualdade
de Oportunidades, por exemplo, o trabalho de cuidados tem que estar posto no debate.
É racional continuar com essas lutas, mas sempre
com o objetivo de incidir sobre o maior número possível de mulheres. Ao mesmo
tempo, temos que continuar insistindo e colocando no debate essa compreensão do
trabalho num sentido mais amplo, não só como assalariadas, mas também a
reprodução social, pensando a economia de uma forma ampliada. A economia não
está desvinculada do social e do cultural. Temos que repensar nossa sociedade e
reconstruir alguns paradigmas, mexendo nos
elementos em geral naturalizados.
E como você ver a percepção de outros companheiros?
Faltam em boa parte deles, e delas, em especial a elas,
acumulo ideológico, conceito e, visão critica, dessa compreensão de gênero e
divisão sexual do trabalho.
Domingos Braga Mota
Coordenador de
mobilização e ação sindical
Sindicato dos
empregados no comercio de Fortaleza
Secretário nacional de saúde e segurança do
trabalhador da CONTRCAS/CUT